TEXTO DE CAROL BANZE, NEYMA DE JESUS E REGINA NAETE
Thank you for reading this post, don't forget to subscribe!A literatura não se limita a registar o tempo. Ela antecipa-o e molda novas vertentes de libertação política e social. É o exercício estético ao serviço da sociedade, sendo que, no universo da poesia feminina encontramos um sujeito que transgride os limites onde a mulher foi historicamente “encaixada”, ao destacar a sua sabedoria, intelectualidade; a sua voz, a sua autonomia.
No contexto das comemorações do 7 de Abril, a “Súplica” de Noémia de Sousa – “Mãe dos Poetas Moçambicanos”, título, este, atribuído em reconhecimento ao impacto da suas produções literárias que têm o “tom de revolta contra o colonialismo, denúncia das arbitrariedades e injustiças geradas pela dominação (Francisco Noa, 2008)” – continua actual. No poema, a “música” representa a voz, a identidade e a autonomia feminina e continua a ser o escudo de uma classe que, embora tenha conquistado marcos históricos fundamentais, ainda enfrenta a batalha de manter a sua essência intacta perante novos desafios. Portanto, são versos que se mantêm cadentes, não obstante o facto de terem sido pensados e escritos no contexto de luta contra o colonialismo.
Eles espelham as lutas da mulher moçambicana contemporânea pelo alargamento do seu espaço na arena política, económica, jornalística, jurídica, artística, digital, entre várias. Com efeito, ela (a mulher) intervem, igualmente, para que a sua “canção” (vontade) seja soberana em outros campos como na agricultura, onde o acesso formal à titularidade da terra e ao crédito financeiro ainda é desigual.
Assim, nos tempos que correm, a “Súplica” é adequada à resistência das mulheres rurais que mantêm viva a economia do país através do seu saber e esforço. Na mesma perspectiva, versos escritos e cantados são adoptados e adaptados para reflectir em torno de uma acção já abordada tacitamente num contexto passado: “Vender-nos como mercadoria”, um problema que assombra a sociedade, reflectido pelo fenómeno de tráfico de mulheres, violência e exploração sexual.
O poema emite a mensagem segundo a qual a ‘música’ traz a liberdade: “seremos sempre livres se nos deixarem a música”, sendo por tal que remete ao conceito de “educação” e “empoderamento”, as únicas ferramentas que permitem à mulher escapar da exploração e “venda” da sua dignidade.
Ora, a “música”, seja na literatura, no activismo ou no empreendedorismo, serve para reconstruir o que foi tirado, provando que, tal como no poema, “mesmo mortos, viveremos”; sim, as mulheres vivem na poesia e na rotina diária da vida de todo o ser humano, sem distinção de género.
Hoje, a transição da música-ritmo para música-voz ocorre através da intervenção de várias moçambicanas que, a seu espaço, exigem que a sua “música” – voz política, académica, artística, religiosa, rural… – seja o instrumento que dita o conserto da sociedade. A metáfora criada por Noémia de Sousa evoluiu!
A música deixou de ser um consolo para o escravo e passou a ser o grito da liberdade definitiva, um caminho continuado por vozes como Énia Lipanga e Deusa D’África, que usam a poesia como uma ferramenta para fazer denúncias, romper silêncios, especialmente o imposto às mulheres, tal como diz Énia Lipanga, “num contexto em que muitas ainda são ensinadas a calar, escrever e dizer poesia torna-se um acto político e de existência. É afirmar, eu estou aqui, eu sinto, eu penso mesmo que vocês homens não queiram”. Leia mais…
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