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A escritora indígena Eva Potiguara, 58 anos, lançará, em março de 2026, seu décimo quarto livro, agora, uma coletânea de poemas escritos ao longo dos últimos 20 anos. Vencedora do Prêmio Jabuti em 2023 com uma obra conjunta de autoras indígenas, ela acredita que ainda há um longo caminho a ser percorrido para que mulheres descendentes de povos originários conquistem o espaço que merecem na literatura brasileira.Em entrevista ao PÚBLICO Brasil, durante participação na Feira Literária Internacional da Paraíba (FliParaíba), que se encerra neste sábado, 29 de novembro, Eva estima que as escritoras indígenas sejam menos de 1% das mulheres que conseguem ter os livros publicados. As estatísticas apontam que, no Brasil, apenas 30% das obras que chegam ao mercado são escritas por mulheres. “Dessas, somos menos de 1%”, afirma.Eva viveu tempos difíceis ao ser vítima do crime de ódio na internet. No fim de 2020, após publicar uma foto com um cocar que havia ganhado de presente em Portugal, foi acusada por dois homens de ser “uma índia falsa”. Foram mais de dois anos de ataques violentos, mas ela obteve uma vitória no Supremo Tribunal Federal (STF), que obrigou seus algozes a indenizá-la por danos morais e a se retratarem publicamente — um deles se recusa a fazê-lo. “Foi um período difícil, mas, hoje, não tenho mais medo”, diz. “Jamais vou deixar que me silenciem novamente”, enfatiza.
Quando eu estava em Portugal, tirei uma foto com um cocar que havia ganhado de presente. Dois homens do meu estado, o Rio Grande do Norte, pegaram essa foto e colocaram uma legenda me chamando de “hiena de cocar”. E me chamaram de “índia falsa”, porque, segundo eles, no Rio Grande do Norte não havia índios.
Para a escritora, as jovens indígenas que desejam se aventurar pela literatura devem investir na carreira, mesmo que as dificuldades sejam grandes. “Eu enfrentei meus monstros, hoje, enfrento meus algozes. Não tenho mais medo de nada”, afirma. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista.A presença feminina na literatura brasileira ainda é limitada. Apenas 30% das obras editadas são de mulheres escritoras. Como é a participação de indígenas nesse mercado?Eu percebo que, nesses 30% de mulheres, nós, indígenas, somos menos de 1%. E foi sabendo dessa realidade dolorosa que nós criamos o Mulherio das Letras Indígenas em 2021, em plena pandemia. Nós nos juntamos e percebemos que várias mulheres indígenas eram escritoras e algumas escreviam desde a adolescência, mas nunca puderam, por questões financeiras ou por falta de apoio da própria família ou da própria liderança da aldeia, lançar suas obras. Então, resolvemos criar um espaço de voz para nós.Foi difícil reunir essas mulheres escritoras indígenas?Não foi fácil. Além de estarmos no meio da pandemia, naquele momento, eu estava enfrentando um ataque racista nas redes sociais.Como assim?Quando eu estava em Portugal, tirei uma foto com um cocar que havia ganhado de presente. Dois homens do meu estado, o Rio Grande do Norte, pegaram essa foto e colocaram uma legenda me chamando de “hiena de cocar”. E me chamaram de “índia falsa”, porque, segundo eles, no Rio Grande do Norte não havia índios. Eles propagaram essa mentira pela internet no final de 2020. Foram mais de 20 matérias falsas. Eu sofri muito.
De onde esses dois homens tiraram isso?Um grande folclorista, antropólogo e historiador chamado Câmara Cascudo disse que os índios tinham sido dizimados no Rio Grande do Norte. Então, essa coisa de ter sido dizimado ficou na cabeça de muita gente que não procurou saber a história toda, que havia descendentes desses índios. O problema é que esses dois homens que difundiram as mentiras tinham uma narrativa muito violenta, e eu ainda estava aprendendo a dizer não, aprendendo a acreditar em mim, porque sou de uma geração de mulheres silenciadas. Eu demorei muito a ter coragem de falar, de pedir ajuda. Hoje, digo que jamais vou deixar que me silenciem novamente.
Nenhuma mulher se sente bem em dizer que foi abusada, que praticamente ficou enclausurada à disposição de um homem, tendo um filho atrás do outro.
Quando decidiu se defender?Pedi ajuda ao grupo de mulheres indígenas, para que se posicionasse em meu favor, soltasse uma carta de repúdio. Em João Pessoa, visitei uma amiga muito querida, Maria Valéria Rezende, que é uma grande escritora. Ela me apoiou completamente, porque, naquele momento, com toda aquela perseguição, eu estava sendo cancelada. Não era convidada para nada, porque as pessoas tinham medo de se aproximar de mim, especialmente as mulheres. Foi então que Maria Valéria me disse que havia chegado a hora de eu juntar as mulheres indígenas das letras, que, como eu, eram ignoradas, silenciadas, discriminadas e marginalizadas. Eu pedi o apoio do mulherio. Ainda assim foram dois anos de perseguição. E tive de recorrer à Justiça contra o machismo, o racismo, a misoginia.Por que demorou em se assumir como indígena?Mesmo tendo nascido na cidade, sempre soube que era indígena, mas a minha família não nos liberava para assumirmos a nossa identidade. Era um segredo, porque todas as nossas avós foram abusadas por italianos e portugueses. Nós temos muitas memórias doloridas desses abusos. Por isso, nenhum de nós estava autorizado a dizer que éramos indígenas. Ao dizermos que éramos indígenas, tínhamos de falar de onde vinha a nossa identidade.Nenhuma mulher se sente bem em dizer que foi abusada, que praticamente ficou enclausurada à disposição de um homem, tendo um filho atrás do outro. Os filhos foram aprendendo a língua daquele branco, aprendendo também os valores daquele branco. Perdeu-se a memória, o sentimento de pertencimento. A partir do momento em que me conscientizei disso, resolvi lutar em favor do povo potiguar, resgatar a nossa história, porque o genocídio não é só do corpo, é da identidade. Quando você não sabe quem é, de onde veio, temos o etnocídio.Quando rompeu com esse ciclo?Depois que a minha avó materna morreu. Conversei com a minha tia mais velha, que, por sinal, criou minha mãe, e ela me contou toda a história da qual eu só sabia pedaços. Descobri que não era potiguar, porque quem nasce no Rio Grande do Norte é chamado de potiguar. Eu aprendi que era potiguara e, por ser potiguara, acrescentei só uma letrinha, no meu nome, que era Eva Potiguar, e passei a ser Eva Potiguara. Foi aí que comecei a ser perseguida como uma indígena falsa. Sou a única mulher da minha aldeia a lançar um livro, a ser escritora.Quantas mulheres indígenas escritoras fazem parte do seu grupo?Hoje, somos mais de 300, número que aumenta todo dia. E ganhamos protagonismo, sobretudo, em 2023, quando vencemos o Prêmio Jabuti, o mais importante da literatura brasileira. Fizemos um livro intitulado Guerreiras da Ancestralidade do Mulherio das Letras Indígenas, com textos de escritoras indígenas, livro esse que não pode ser vendido. Vencemos na categoria de Fomento à Leitura. Com isso, furamos a bolha. As pessoas passaram a baixar o livro, a nos chamar para dar entrevistas. E as editoras nos abriram as portas.
Inclusive, eu não iria para entrega do prêmio, mesmo concorrendo em outra categoria com o meu livro Abyayala Membyra Nhe’Engara — Cânticos de Uma Filha da Terra. Estava me recuperando de uma cirurgia de câncer de mama. Mas, faltando uma semana para a cerimônia de entrega, tive um sonho no qual meus ancestrais me disseram que ganharíamos o Jabuti. Comprei uma passagem e fui. Quando cheguei lá, eu era a única de cocar, com minhas roupas de grafismos, enquanto todos estavam em trajes de gala. Quando subimos ao palco para recebermos o prêmio, ninguém deveria falar nada, mas eu falei. Disse para que todos lessem as obras de mulheres indígenas, pois o Brasil é uma terra indígena. Foi uma emoção muito grande.Você tem 13 livros publicados. Qual a sua próxima obra?Será uma coletânea de poemas escritos nos últimos 20 anos, que falam de tudo o que passei e de como deixei de ter medo. Eu não tenho mais medo de nada.Que conselho daria para as meninas indígenas que ainda vivem oprimidas, subjugadas?Que acreditem nelas, que podem vencer, começando por acreditarem na capacidade de enfrentar a si mesmas. Eu tive de enfrentar meus medos, meus monstros. Hoje, enfrento meus algozes. Botei aqueles dois homens que me agrediram na Justiça. O caso foi parar no Supremo Tribunal Federal, que me deu ganho de causa. Eles tiveram de me indenizar por danos morais e foram obrigados a se retratarem. Um deles se recusa a fazer essa retratação. São pessoas cheias de ódio contra os povos indígenas. São pessoas mal resolvidas.O repórter viajou a convite da Feira Literária Internacinoal da Paraíba.
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