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Num país onde os desafios sociais e económicos persistem, são inúmeras as mulheres que, no seu quotidiano, criam soluções, lideram mudanças e ajudam a definir o futuro da sociedade moçambicana. As conquistas alcançadas impactam não só o ambiente à sua volta, mas também a vida de muitas outras mulheres.
Na saúde, no activismo e no empreendedorismo, usam do seu talento e conhecimentos para aliviar tensões, ensinar e impulsionar transformações. Três mulheres por nós entrevistadas possuem no seu discurso um denominador comum: a inquietação perante as desigualdades e a vontade de ver mudanças concretas. Apesar das adversidades, elas mantêm-se firmes, guiadas pela convicção de que o futuro se constrói hoje.
Dzira Razão de Deus cresceu num ambiente familiar marcado por uma forte influência materna. Uma mãe com diversas facetas: professora, sindicalista bancária, católica de convicção, que criou sozinha três filhas, a quem as transmitiu como valores coragem e consciência social numa sociedade marcada pelo machismo.
Talvez por isso, desde cedo desenvolveu um espírito questionador. Aos nove anos, já interrogava a mãe sobre desigualdades de género — desde o uso de roupas até às diferenças nas dinâmicas familiares. Na igreja, questionava a exclusão das meninas de certas funções. Mais tarde, a desigualdade social passou a inquietá-la profundamente.
Na adolescência, envolveu-se em acções comunitárias, como campanhas de limpeza e apoio a pessoas vulneráveis, através da Comunidade de Santo Egídio. Mas, foi no ensino superior, no então Instituto Superior de Relações Internacionais (actual Universidade Joaquim Chissano), que o seu activismo ganhou forma mais estruturada. Ali, aprofundou conhecimentos sobre direitos humanos e direitos das mulheres.
DIREITO DAS MULHERES
A sua trajectória levou-a ao Fórum Mulher, organização onde, actualmente, exerce o cargo de directora-executiva. Um dos seus principais focos é a luta pelo direito das mulheres à terra. “Muitas mulheres são expropriadas das suas machambas. Embora representem cerca de 80 por cento da força de trabalho agrícola nas zonas rurais, não têm poder de decisão nem títulos de propriedade”, denuncia.
Dzira alerta para a persistência da violência baseada no género em Moçambique, agravada por factores como a falta de informação, práticas culturais nocivas e baixos níveis de escolaridade. “Ainda enfrentamos muita violência motivada pela ignorância e pela normalização de práticas prejudiciais”, afirma. Leia mais…
