Um museu em obras, outro museu em obras, e o transtorno acabou por ser a chave para um passo inédito no universo da arte em Portugal: parte do espólio do Museu Calouste Gulbenkian integra, desde o final de Outubro, uma mostra que reúne um total de 175 obras no Museu Nacional Machado de Castro (MNMC), em Coimbra.A exposição resulta da junção de 88 obras provenientes do Museu Gulbenkian (actualmente encerrado para renovação dos sistemas de climatização, de iluminação e de segurança) e 87 do acervo do MNMC, estabelecendo assim “um diálogo inovador entre as duas colecções”, como sublinha Sandra Costa Saldanha, directora do museu sediado em Coimbra. E isso explica, afinal, o título desta exposição: Diálogos.A mostra contraria o tradicional discurso cronológico, já que nas mesmas salas são confrontadas criações de diferentes culturas, geografias e períodos históricos, da Antiguidade à Idade Moderna, convidando os visitantes à descoberta de afinidades técnicas, estéticas e conceptuais.“Longe de reduzir as colecções do MNMC aos circuitos da produção local, esta exposição evidencia sobretudo o protagonismo e a excepcionalidade criativa de Coimbra ao longo de séculos”, explica Sandra Costa Saldanha, à margem de uma visita que antecedeu a abertura da exposição. A seu lado, o presidente da Museus e Monumentos de Portugal (MMP), Alexandre Nobre Pais, sublinha a importância da descentralização, enquanto enaltece o trabalho de curadoria a cargo de Luísa Sampaio, por parte do Museu Gulbenkian, e da própria directora do Machado de Castro. “Nunca poderia haver um só curador. Aqui os dois museus estão exactamente ao mesmo nível”, afirma Nobre Pais, enquanto percorre algumas das dez salas que albergam a mostra.
A exposição começou a ser pensada em Fevereiro deste ano e ficará patente até ao dia 22 de Fevereiro de 2026. Entre Abril e Maio foram definidas as peças que iriam viajar de Lisboa para Coimbra, “e a partir daí foi definido o guião e identificadas as peças do MNMC. Em Junho esse guião estava feito, e a partir de Julho iniciou-se um processo hercúleo”, conta Sandra Costa Saldanha, referindo o trabalho complexo de retirar tudo o que estava naquelas salas, já que toda aquela área expositiva foi também alvo de requalificação.Haveria de seguir-se outro trabalho de grande envergadura, já que as peças do Museu Gulbenkian só chegaram a Coimbra na primeira semana de Outubro. Sandra Costa Saldanha destaca a colaboração estreita por parte da Universidade de Coimbra, nomeadamente da Faculdade de Letras, através do curso de História da Arte, em concreto das académicas Joana Antunes e Maria de Lurdes Craveiro. Outros docentes se juntaram a esta demanda, nomeadamente do curso de Arqueologia de Coimbra, além de Joaquim Inácio Caetano, conservador-restaurador especialista em pintura mural e cuja colaboração Sandra Costa Saldanha destaca com ênfase: “É uma das partes invisíveis que aqui está”, sublinhou, aludindo a uma peça ainda em processo de restauro, um retábulo “raríssimo, uma obra única no mundo, proveniente da Sé Velha, que estava feita em pedaços”.Sandra Costa Saldanha destaca ainda outro pormenor desta exposição, graças à colaboração de Miguel de Seixas, da Universidade Nova de Lisboa, “que teve em mãos um imenso desafio de identificação de brasões pedras-de-armas, [e que foram] pela primeira vez correctamente identificados”.A directora do Museu Machado de Castro aproveita o momento para sublinhar “a excelência e multiplicidade das obras reunidas por Calouste Gulbenkian”, lembrando que “os paralelismos propostos afirmam a centralidade das colecções do MNMC”. Enfatiza ainda o carácter identitário dos acervos e a natureza específica “de uma estrutura patrimonial única — herdeira do antigo fórum romano de Aeminium e do sucedâneo Paço Episcopal. É a partir daqui que se estabelecem diálogos ímpares, traduzidos num elenco de peças notáveis”. Muitos desses diálogos pareciam, até agora, improváveis.Entretanto, esta é uma das exposições que dão o mote ao programa “Natal no Museu”, que decorre no MNMC entre os dias 9 e 23 de Dezembro. A partir dos diálogos inovadores criados em torno dos acervos do MNMC e do Museu Calouste Gulbenkian, a equipa do serviço educativo preparou um conjunto de actividades dirigidas a todos os públicos, incluindo crianças e famílias. As actividades vão funcionar com um mínimo de cinco e máximo de 15 elementos, mediante inscrição prévia através de email.A mostra pode ser visitada de terça a domingo, das 10 às 18 horas, numa área do museu onde ainda decorrem obras no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência.
