“Não há migrante sem saudade da terra natal”, diz diretor de espetáculo.

“Não há migrante sem saudade da terra natal”, diz diretor de espetáculo.

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A Companhia Cem Palcos apresentará o espetáculo multicultural Anoitecer neste sábado (29/11), no Centro Cultural de Carregal do Sal, em Viseu, e no dia 7 de dezembro, no Centro de Artes de Águeda, em Aveiro. Com temática sobre imigração, o projeto reúne sete profissionais, entre músicos e atores, e sete intérpretes amadores de diferentes países, mas que vivem em Portugal. O texto, costurado a partir de histórias contadas por estes imigrantes-artistas, é assinado pela escritora holandesa Hanneke Paauwe, que vive em Bruxelas, e pelo diretor britânico Graeme Pulleyn, 59 anos, um dos fundadores do grupo criado em 2019.“Nós fizemos o convite a Hanneke porque por um lado ela tem experiência em trabalhar com comunidades de vários países, e, por outro lado, porque seria interessante ter um olhar externo a escrever sobre imigração em Portugal”, conta Pulleyn.Radicado em Viseu desde 1990, ele e Hanneke entrevistaram cerca de 30 pessoas de várias partes do mundo em cinco cidades portuguesas: Viseu, Tondela, Carregal do Sal, Águeda e Ílhavo. Além de brasileiros, há pessoas de países como Gâmbia, Argélia, Ucrânia, Venezuela e Argentina. “Colocamos as mesmas perguntas para todas elas. Quais eram as razões de virem para Portugal, como é que se sentiam neste país, suas histórias de vida. Mas também pedimos para nos contarem piadas, para nos cantarem uma canção da terra natal, para nos falarem das comidas, das memórias”, detalha o diretor.

Precisamos cultivar a curiosidade em vez do medo. Não devemos perder os valores antigos de hospitalidade e de generosidade. Eu gosto de receber bem qualquer pessoa tanto na minha casa como na companhia. Quando se trata de estrangeiros, como eu, é importante olharmos para a chegada deles como uma oportunidade para crescermos e enriquecermos.

Graeme Pulleyn


Pulleyn destaca que a movimentação política do Governo português em relação à imigração não poderia ficar de fora do espetáculo, mas que o assunto é sempre tratado de uma maneira saudável e otimista.“Perante estas mudanças sociais, demográficas e também políticas, que têm vindo a acontecer à volta do tema da imigração, e de alguma intolerância para com essas pessoas de outros países, com a ascensão da extrema-direita, o nosso papel de artista é contribuir para que haja um debate saudável, construtivo e otimista sobre como é que podemos viver todos juntos. É claro que há questões, mas sentimos que, muitas vezes, há um olhar de certa forma pessimista, que foca nos problemas, nos perigos, e isto vai alimentando este discurso intolerante”, avalia.Com música original e ao vivo da banda Bela Noia, o espetáculo, frisa Pulleyn, tem como objetivo ser uma celebração entre povos de diferentes cantos do planeta. “É evidente que é preciso enfrentar os problemas, é preciso legislar, mas é preciso também mostrar que podemos viver juntos. Sentimos que há uma necessidade grande de procurarmos aquilo que temos em comum. Anoitecer é um hino para celebrarmos aquilo que temos em comum”, diz.Ele cita com entusiasmo histórias positivas contadas pelos imigrantes que participam do projeto teatral. “Houve uma senhora brasileira, que é dentista e professora universitária, que me disse que estava muito focada na própria dor de não conseguir a equivalência para trabalhar em Portugal. Mas que, depois dos ensaios e de conhecer as outras pessoas do espetáculo, percebeu que a sua dor era relativa, que há, por exemplo, crianças refugiadas vindas de países africanos, como Gâmbia, Senegal, Serra Leoa, meninos que foram soldados. Há uma outra senhora da Ucrânia que me disse: ‘eu era o meu trauma, vivia com a minha tristeza, com a minha perda, com as coisas horríveis que eu vi, com as mortes e os bombardeios. Mas eu aprendi a viver de novo’. É por isso que fazemos este projeto, por causa de depoimentos como esses”, afirma.Pulleyn chegou a Portugal em 1990 para trabalhar como voluntário nas aldeias da Serra do Montemuro, em Viseu. E o que era para ser uma experiência de apenas um ano acabou virando seu propósito de vida.“Desenvolvia tarefas culturais com crianças, jovens, com moradores que viviam em regiões muito isoladas”, comenta ele, que fala perfeitamente a língua portuguesa. “Aprendi nas melhores escolas, a beber vinho e comer presunto nas tabernas, e nas casas das pessoas que me acolheram tão bem. Precisamos cultivar a curiosidade em vez do medo. Não devemos perder os valores antigos de hospitalidade e de generosidade. Eu gosto de receber bem qualquer pessoa tanto na minha casa como na companhia. Quando se trata de estrangeiros, como eu, é importante olharmos para a chegada deles como uma oportunidade para crescermos e enriquecermos. Não no sentido monetário, mas no sentido cultural e espiritual”.
E ele complementa: “A imigração sempre existiu, faz parte da condição humana. E, se formos olhar, Portugal é um país de imigrantes, de gente que ao longo da história foi para outros lugares da Europa ou para o Brasil. É preciso um bocadinho de cabeça fria para nos lembrarmos quem nós somos e libertarmo-nos do nosso medo. Acho que muitas vezes falta um pouco de informação sobre quem são estas pessoas, porque elas não deixam os seus países de origem com leveza. Acho que não há um migrante que não tenha saudade da sua terra natal. Falo por mim também, eu sou um imigrante”.
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