O português não pertence a ninguém, é uma língua em estado de travessia, diz escritor

O português não pertence a ninguém, é uma língua em estado de travessia, diz escritor

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Mais de 30 escritores e pensadores de Brasil, Portugal, Guiné-Bissau, Angola e Cabo Verde se reúnem a partir desta quinta-feira, 27 de novembro, em João Pessoa, capital da Paraíba, na segunda edição do Festival Literário Internacional da Paraíba (FliParaíba), cujo tema central, Nossa Língua, Nossa Gente, tratará de ancestralidade, identidade e futuro da democracia.Curador do festival que se estenderá até sábado (29/11), o escritor e professor português José Manuel Diogo diz que a programação, que tem entre os participantes Silviano Santiago, vencedor do Prêmio Camões, e Itamar Vieira Jr, ganhador do Prêmio Jabuti, nasceu da clara convicção de que o português não tem dono e de que não há futuro democrático possível sem reconciliação com as camadas profundas da formação histórica dos países de língua portuguesa.”A nossa curadoria parte de uma ideia radical: o português não pertence a ninguém. Ele é uma língua em estado de travessia. Durante séculos, foi instrumento de dominação. Hoje, pode ser ferramenta de reconciliação, desde que seja aceito como um território partilhado, múltiplo e indisciplinado”, frisa, ressaltando que o português, com todas as suas variações e sotaques, não pode ser “propriedade de um centro”.


Feira Literária Internacional da Paraíba segue até sábado, 29 de novembro, tendo a democracia como um dos temas principais
Vicente Nunes

No entender dele, são se trata de apagar a ferida colonial, mas de impedir que a língua portuguesa continue a ser uma estrutura invisível de poder. “A língua pode ser um espaço político de negociação simbólica, desde que as margens sejam reconhecidas como centro de produção cultural e intelectual”, assinala.Ancestralidade e democraciaDiogo ressalta ainda que a FliParaíba quer mostrar que a ancestralidade não é nostalgia nem culto do passado, mas, sim, uma infraestrutura simbólica. “Em tempos de polarização, a democracia deixou de ser apenas um sistema político e tornou-se uma disputa de narrativas, memórias e pertencimentos”, explica.Ele acrescenta: “O festival trabalha a ancestralidade como tecnologia de futuro. Ou seja, escutar as vozes indígenas, africanas, periféricas e populares não é um gesto identitário, é uma estratégia de sobrevivência democrática. Não estamos romantizando o passado, mas reprogramando o futuro a partir do que foi silenciado”.Segundo o curador, a diversidade da língua portuguesa não ocupa “apenas um lugar” na programação da FliParaíba: “Ela é a própria arquitetura do festival, pois não há língua portuguesa padrão. Há português em estado de fricção, de invenção, de deslocamento. O português africano, brasileiro, europeu e os crioulos não aparecem como exotismo nem como quota simbólica. São como pensamento vivo”.


Segundo José Manuel Diogo, a diversidade da língua portuguesa não ocupa apenas um lugar na programação da FliParaíba: “Ela é a própria arquitetura do festival, pois não há língua portuguesa padrão”
Divulgação

O escritor destaca que democracia, no plano cultural, só existe quando não há hierarquia entre as formas de dizer o mundo. “Quem controla a norma, controla o imaginário. O festival desmonta essa lógica ao colocar todas as variantes em condição de igualdade radical. Para mim, esta diversidade não é apenas um tema curatorial, é também uma ética de escrita”, afirma.Autor do recém-lançado Uma Geografia Poética, Diogo diz que a língua, com sua diversidade, deixa de ser instrumento e torna-se território, um lugar que só existe quando o leitor chega para o despertar. “O português, nesse sentido, não existe ‘por si’, mas ‘per ante’, como relação ética no sentido que Gilles Deleuze reconhecia: a linguagem não representa o mundo, ela o produz.”Mulheres e diversidade étnicaSegundo Pedro Santos, secretário de Cultura da Paraíba, a definição das mesas, de seus respectivos convidados e da programação geral da FliParaíba é resultado de uma curadoria conjunta entre o órgão que ele dirige, a Associação Portugal Brasil 200 Anos e a Empresa Paraibana de Comunicação. “Esse olhar colaborativo nos permitiu trazer para a programação a novíssima produção literária da Paraíba, dialogando com o Nordeste, o Brasil e os países lusófonos”, assinala.Ele destaca a presença de “mulheres fortes e a diversidade étnica” entre os participantes da feira, ao levar ao centro das discussões autores e pensadores indígenas, ciganos, quilombolas e periféricos. Santos lembra que, durante o FliParaíba, além da língua portuguesa, o público ouvirá o tupi, língua materna dos povos Tabajara e Potiguara presentes na Paraíba, e o calon, um dialeto da língua Romani falado pelo povo cigano — o estado abriga a maior população cigana sedimentada do Brasil.José Manuel Diogo, curador da feira complementa: “Não estamos a celebrar o passado, estamos a interrogá-lo. Cada mesa, cada debate, cada leitura parte da ideia de que lembrar é um ato político. A memória, quando transformada em museu, torna-se inofensiva; quando colocada em tensão com o presente, transforma-se em potência. O festival convoca memórias coloniais, autoritárias, silenciadas e populares não para confortar, mas para desinstalar. A pergunta central não é o que fomos, mas o que ainda reproduzimos sem perceber”.Diogo também diz que a programação da FliParaíba parte de uma inversão de paradigma: a democracia não é a origem, é a consequência. “Antes da democracia existiam sistemas de transmissão de sabedoria, códigos de pertença, redes de cuidado e pactos de convivência que, hoje, chamamos ancestralidade. A memória, nesse contexto, não é arquivo, é tecnologia política anterior aos próprios Estados. Quando a democracia já não consegue garantir a sua própria defesa, talvez o segredo da sua reinvenção não esteja nas instituições, mas nesses sistemas antigos de escuta, partilha e responsabilidade coletiva”, enfatiza.
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