Sonhei que o meu marido me traía!

Sonhei que o meu marido me traía!

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Querida mãe,Hoje queria falar-lhe de um assunto muito sério e que tantas vezes é calado. Quero falar-lhe de traição. De quando a pessoa com quem partilhamos a nossa vida, pai dos nossos filhos nos trai. Não, mãe, não estou a falar dos casos em que são apanhados na cama com outra pessoa, ou que descobrimos nos seus telefones mensagens picantes que não nos são dirigidas. Esse tipo de traição é grave, sim, mas pelo menos tem direito a ser debatido abertamente: há livros, filmes, canções, séries infinitas sobre o assunto e as vítimas podem, pelo menos, receber apoio e validação.Eu estou a falar da traição horrível de nos irmos deitar, despedirmo-nos carinhosamente do nosso parceiro, depois de termos passado um dia maravilhoso com ele, e de repente, mal fechamos os olhos, começamos a sonhar e o horror acontece: não só escolhe outra mulher, como nos trata mal, revela o seu lado sombrio — que nunca foi visto à luz do dia! Quando acordamos em lágrimas de tristeza e de raiva e os chocalhamos do seu sono sereno (que atrevimento depois de tudo o que fez dormir assim!), em vez de se desfazer em desculpas, em lugar de nos tentar compensar com flores ou jóias, tem o desplante de negar tudo! Olha para nós como se fossemos loucas e ainda tem a lata de ficar irritado. Isto tudo quando assistimos a tudo com os nossos próprios olhos — fechados, é verdade, mas ainda assim… Quando é que eles vão perceber que têm que assumir responsabilidades pelos seus atos… mesmo que imaginados?Uma desculpa faria toda a diferença, não acha, mãe?Ana, não acredito, também tens desses sonhos? Acorda-se com o coração partido, a dor é tão real, tão viva, cada imagem gravada a ferro e fogo que não conseguimos conceber que aquele pesadelo não tenha acontecido mesmo assim. Porque é que eles negam tudo e, ainda por cima, ficam furiosos? Porque não nos consolam e asseguram que tudo não passou de um sonho? Não sabem já por esta altura como as nossas cabeças funcionam? Que vamos interpretar o ar ofendido, como uma confirmação, resultado de terem sido apanhados em flagrante, ou quase? Que a sua irritação só parece confirmar o suposto vislumbre que tivemos do seu lado B, de que nunca deu sinais até ao momento?Agora que sei que não é só comigo, fui explorar a Internet à procura de outros casos, não fossemos ser apenas nós as duas as assombradas por esta experiência por alguma condicionante genética, para descobrir que, afinal, infernizam a noite a muitas mulheres. Uma sondagem dos hotéis Ibis (sim, o assunto até tem direito a sondagens), com um universo de duas mil cobaias, concluiu que uma em cada cinco mulheres tinham sonhos recorrentes com a infidelidade do parceiro. Quanto às explicações, queres que comece pelas que fazem das mulheres vítimas ou preferes as que lhes atribuem a culpa?Vamos às vítimas. Os gurus do mundo virtual que apoiam esta interpretação, asseguram que quando as mulheres sonham com a traição do marido, os responsáveis são eles, ou porque não lhes deram a atenção que elas merecem, ou porque elas com a sua sensibilidade feminina intuem o desejo de traição que lhes vai no inconsciente e que, obviamente, por ser inconsciente os pobres nunca terão possibilidade de desmentir. Aliás, quanto mais reagem em protesto, mais culpados são, o que resumindo e concluindo quer dizer que estão condenados à partida.Seguimos para a versão de que as culpadas somos nós. Tem calma, Ana, porque o argumento aqui é qualquer coisa como “Quem diz é quem é!”, ou seja, as mulheres usam o outro como um espelho, e o que vêem é o seu reflexo. E o que sentem, dizem estes psicanalistas de bolso, é remorsos por não estarem a investir o suficiente na relação, distraídas com outros interesses, que podem ser os filhos ou um projecto profissional. Num artigo sobre o assunto publicado pelo Huffpost, surge a citação do psicólogo Ian Wallace, que não faço ideia quem seja, mas que diz que estes sonhos revelam “Que você está a trair-se a si mesma no dia-a-dia, e precisa urgentemente de ter mais confiança nos seus talentos e como esses talentos atraem as pessoas que estão à sua volta”. Não está mal visto.Mas tanto os partidários de uma interpretação como da outra propõem que o assunto seja discutido calmamente pelo casal, mas não a meio da noite em versão inquisidor num falso tribunal. Convenhamos que contra um delírio louco é difícil argumentar e, mesmo as flores que sugeres, podiam muito bem acabar atiradas pela janela, ou com um grito de que as fosse dar à outra, por isso é melhor esperar uns dias até a raiva interior acalmar. Os investigadores da Universidade de Maryland, que publicaram um artigo sobre a relação entre os sonhos e o nosso estado de espírito subsequente, concluíram que após um destes pesadelos segue-se realmente um período de maior conflito relacional e menor intimidade.Espera, há uma outra nota importante que encontrei num site chamado guideposts.org. À pergunta de uma leitora de como poderia descobrir se este sonho era um aviso divino, o conselho é “Deus avisa sempre mais do que uma vez! Assim, ou vai repetir-se ou quando está acordada irá continuar a ouvir uma frase que a fará lembrar de novo o sonho”. E então sim, o assunto é sério. Cruzes, canhoto, entre ficar a ouvir vozes ou o nosso marido ter realmente uma amante, não sei o que escolher!Desculpa, esta birra já vai longa, mas agora falando muito a sério, uma grande vantagem destes pesadelos é que nos permitem simular mentalmente a nossa reação a determinados acontecimentos, e sentir — sentir mesmo! — que o nosso coração não está tão anestesiado como às vezes parece na correria do dia a dia.O Birras de Mãe, uma avó/mãe (e também sogra) e uma mãe/filha, logo de quatro filhos, separadas pela quarentena, começaram a escrever-se diariamente, para falar dos medos, irritações, perplexidade, raivas, mal-entendidos, mas também da sensação de perfeita comunhão que — ocasionalmente! — as invade. E, passado o confinamento, perceberam que não queriam perder este canal de comunicação, na esperança de que quem as leia, mãe ou avó, sinta que é de si que falam. As autoras escrevem segundo o Acordo Ortográfico de 1990

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