Apesar dos constrangimentos do formato, os debates presidenciais têm permitido aos candidatos apresentarem as suas ideias. Com uma exceção: os confrontos em que participa André Ventura. Seja qual for o interlocutor, ele adota um registo sobejamente conhecido: provocador, agressivo e histriónico. As suas prestações são marcadas por interrupções e sobreposições constantes, com o objetivo de controlar a narrativa. Aproveita mesmo muitas vezes tais oportunidades para, totalmente a despropósito, introduzir soundbytes incendiários na agenda mediática.Em vários países (Estados Unidos, Brasil, França, entre outros), os media já adotaram medidas para conter este tipo de atuação em debates eleitorais – por exemplo, desligando o microfone do candidato a quem não cabe responder; por cá, as televisões resistem a alterar as regras. A razão mais imediata é óbvia: o desempenho de Ventura gera audiências, torna-se viral nas redes sociais e – aparentemente – é bom para o negócio. Por isso, mesmo fora dos ciclos eleitorais, ele é o político mais procurado pelos canais de informação.
O seu estilo performático é uma mescla de indignação, dramatização, entretenimento e sarcasmo, que pode incluir até a desclassificação do jornalista que o entrevista ou modera o debate em que participa. De facto, Ventura gosta de dinamitar formatos. O problema está em que um debate e uma entrevista são muito mais do que uma forma de organizar a interação entre os media e a política. O figurino corporiza um conjunto de códigos culturais e valores democráticos, de onde se destacam o reconhecimento do papel do jornalista como mediador do interesse público e fiscalizador dos poderes, bem com o dever dos políticos de aceitarem ser questionados e escrutinados.Demasiadas vezes, André Ventura não responde às perguntas nem dá esclarecimentos. Recorre antes a desqualificações e acusações que procuram deslocar o foco do conteúdo das questões para uma suposta falta de idoneidade de quem as formula. A hostilidade perante o jornalista no momento em que este exerce o seu papel de escrutínio não é apenas uma estratégia retórica: ela visa transformar qualquer pergunta numa intenção motivada por interesses ilegítimos, desmotivar o questionamento e reduzir o espaço para a crítica.Não tenho dúvidas de que a solução para lidar com este tipo de políticos não passa por espetacularizar ainda mais esses encontros, como têm ensaiado certos canais ao munir-se de reforços para oferecer aos espetadores mais do mesmo: em vez de um jornalista, juntam mais quatro para fazer perguntas, ou delegam em comentadores a função de perguntar. Como seria de esperar, o resultado não se altera. Um jornalismo televisivo que queira ser diferente não se pode ficar por mudanças de forma.É sabido que a lógica antissistema beneficia com a rutura dos rituais democráticos. Ao tentarem manter dentro de certos parâmetros de atuação quem medra fora deles, os jornalistas prestam-se a pouco mais do que a um exercício performático, condenado a torná-los parte do espetáculo de Ventura. Este comportamento reiterado fragiliza a profissão, mina a confiança pública na informação jornalística e põe em risco a função democrática de responsabilização do poder político, inspirando, inclusive, outros políticos a seguirem idêntica linha de ação.
Ao tentarem manter dentro de certos parâmetros de atuação quem medra fora deles, os jornalistas prestam-se a pouco mais do que a um exercício performático, condenado a torná-los parte do espetáculo de Ventura
Num tempo em que o valor atribuído ao jornalismo e a confiança nos meios de comunicação estão em declínio, esta aposta em figuras que garantam a sobrevivência imediata dos canais está a contribuir para a deslegitimação da profissão: quem concorda com os ataques, sente-se reforçado; quem espera do jornalismo televisivo capacidade de resposta fica, no mínimo, desmoralizado. As televisões vivem um paradoxo que elas próprias criaram: procuram audiências e reverberação por vias que – de facto – põem em causa a sua sobrevivência.A autora escreve segundo o acordo ortográfico de 1990
