A auditoria da consultora britânica Bayphase, contratada pelo executivo de Daniel Chapo, para uma auditoria aos números reivindicados pela Mozambique LNG, operada pela TotalEnergies, não conseguiu apurar todos os custos, devido à alegada falta de documentos que possam fundamentar a fiabilidade dos montantes. São diferenças de custos que se aproximam dos números das chamadas dívidas ocultas, à altura contratadas ao arrepio das normas pela administração Guebuza.
Thank you for reading this post, don't forget to subscribe!O governo moçambicano contesta um valor de dois mil milhões de dólares, dos inicialmente 4,5 mil milhões de dólares, que o projecto Mozambique LNG alega serem uma parcela de prejuízos acumulados com a suspensão do projecto de gás natural liquefeito (GNL) em Cabo Delgado. Ao que apurámos, o valor reclamado pelo projecto Mozambique LNG ultrapassa ligeiramente os cinco mil milhões de dólares. Os resultados apurados pela Bayphase, uma consultora internacional britânica de petróleo e gás, fundada em 1986, são avançados esta semana pela Bloomberg. O SAVANA está em posição de confirmar estes números. Uma fonte ligada à petrolífera francesa disse ao SAVANA que o relatório da auditoria feito pelo Bayphase já foi entregue aos representantes da Mozambique LNG para o “contraditório”, um procedimento que segue um protocolo estabelecido por uma resolução de Conselho de Ministros. Fontes da TotalEnergies argumentam que a recuperação dos custos pode ser feita através de várias equações a colocar por cima da mesa.
Em alguns sectores energéticos comenta-se que a falta de entendimento entre o consórcio liderado pela petrolífera francesa e as autoridades moçambicanas ameaça atrasar ainda mais o projecto da Área 1, relançado em Janeiro, após o levantamento da cláusula de “força maior”.
Contudo, fonte da TotalEnergies consultada pelo SAVANA precisou que as discussões decorrem num ambiente cordial e não há espaço para o abrandamento do projecto devido às diferenças de números dos custos recuperáveis. Afirmou que o projecto avaliado em cerca de 20 mil milhões de dólares na área1 da bacia do Rovuma decorre a um “bom ritmo” e já emprega no terreno cerca de seis mil trabalhadores.
Em Outubro de 2025, o CEO da TotalEnergies, Patrick Pouyane, em nome de todos os investidores do projecto Mozambique LNG, enviou uma carta ao presidente moçambicano, Daniel Chapo, em que assinalava que o projecto da Área 1 acumulou custos adicionais no valor de 4,5 biliões de dólares, na sequência dos prejuízos somados, devido à suspensão do empreendimento, em Março de 2021. O gigante petrolífero esteve cerca de quatro anos adormecido, após declarar “força maior”, devido à degradação das questões de segurança, logo depois do mediático ataque jihadista à vila de Palma, a 24 de Março de 2021.
Em Novembro de 2025, o governo aprovou uma extensão de 4,5 anos no prazo de concessão do projecto, recusando o pedido inicial de 10 anos. A extensão visa compensar o período de paralisação. O período de concessão é de 30 anos a contar a partir da data da aprovação do plano de desenvolvimento e produção do projecto. Isto significa que são cinco anos de construção, mais 25 anos de produção. O plano de desenvolvimento da área 1 da bacia do Rovuma foi aprovado pelo governo, em Fevereiro de 2018, num investimento inicial de 12 mil milhões de dólares. A DFI foi tomada em Junho de 2019 pela norte-americana Anadarko, na altura líder do projecto. Em Agosto de 2019, a Anadarko foi adquirida globalmente pela Occidental Petroleum, por 55 mil milhões de dólares, companhia que, a seguir, vendeu os activos em África à TotalEnergies. O negócio permitiu ao Estado moçambicano encaixar cerca de 880 milhões de dólares em impostos de mais-valias. O governo moçambicano formalizou a TotalEnergies como a nova operadora e concessionária da Área 1 em Março de 2021.
O primeiro gás deveria começar a jorrar em 2024, calendarização interrompida após o ataque a Palma, em 2021.
A TotalEnergies actua como operador e principal accionista deste projecto (26,5%), num consórcio onde participam a indiana Bharat Petroleum, a Oil India, a ONGC Videsh, a japonesa Mitsui, e a moçambicana ENH (Empresa Nacional de Hidrocarbonetos).
Montantes ultrapassam cinco biliões
A auditoria realizada pela Bayphase, escreve a Bloomberg, cobriu mais de 3.000 transacções e apurou cerca de três biliões de dólares em custos, durante o período em que esteve em vigor o estado de “força maior”. Contudo, os novos montantes exigidos pela TotalEnergies, escreve a publicação, ultrapassam cinco biliões de dólares. No âmbito do cálculo das contas, o auditor deu 15 dias à TotalEnergies, para responder ao relatório final, período que uma fonte ligada ao assunto afirma que já foi ultrapassado. A fonte afirmou ao jornal que nos primeiros dias de Junho poderá haver um encontro para discussões formais, onde a petrolífera francesa poderá seguir uma “via diplomática”.
Em certos sectores afirma-se que a ausência de dados que possam sustentar o montante global dos custos recuperáveis reforça os argumentos do governo de Daniel Chapo de que a TotalEnergies pode estar a extrapolar os valores.
Tal como o SAVANA escreveu, os auditores da Bayphase visitaram países como Estados Unidos (na Carolina do Sul), Brasil, Egipto, China, Indonésia e Coreia Sul, onde estavam equipamentos produzidos para a plataforma industrial de liquefacção de gás em Afungi. Estes equipamentos, que não foram a Afungi por causa da “força maior”, terão acumulado custos de manutenção e armazenamento avaliados em 1.7 mil milhões de dólares, valor que está dentro da planilha que perfaz os 4.5 mil milhões de dólares reclamados pela Mozambique LNG. Também o ataque à vila de Palma, a 24 de Março de 2021, obrigou o gigante energético a desmobilizar. Ao que o SAVANA apurou e escreveu na altura, só os custos da desmobilização, de acordo com os números da TotalEnergies, ascendem a 300 milhões de dólares, valor igualmente incluído nos custos recuperáveis.
Mais custos, menos receitas
O governo moçambicano está ciente de que custos elevados vão resultar na redução de receitas para o Estado, quando a TotalEnergies começar a produzir GNL na Bacia do Rovuma. Aquando do relançamento do projecto da Mozambique LNG em Afungi, em Janeiro deste ano, Daniel Chapo sublinhou que ao longo do seu ciclo de vida, estima-se que o mesmo possa gerar receitas para o Estado na ordem de 35 mil milhões de dólares. Este valor deverá vir de impostos, petróleo-lucro e outros instrumentos fiscais, contribuindo, segundo Chapo, “de forma decisiva, para o financiamento do desenvolvimento nacional”.
A produção está prevista para iniciar em 2029, cerca de cinco anos depois do previsto inicialmente. A primeira entrega de GNL da primeira linha a instalar em Afungi passou de Julho de 2024, como estava previsto, para o primeiro semestre de 2029.
O projecto Mozambique LNG planeia explorar dois campos na Área 1. Mas o campo Golfinho/Atum, localizado no mar em águas profundas (2500 metros de profundidade), será o primeiro a ser desenvolvido. O projecto tem uma capacidade anual prevista de produção de cerca de 13,12 milhões de toneladas de Gás Natural Liquefeito (GNL), assente na instalação de duas unidades (trains) de liquefação em terra, alimentados por 18 poços.
O GNL do Rovuma oferece uma opção de diversificação do mercado aos compradores da Europa e da Ásia, necessidade que se mostra premente com o conflito no Médio Oriente e a consequente guerra marítima no estreito de Ormuz, que tem sido usado pelos EUA e Irão como instrumento de chantagem, para a obtenção de concessões entre si.
Recorde-se que os tomadores do gás produzido pela Mozambique LNG são a francesa EDF, os japoneses Jera, Tohoku Electric, Toquio Gás, e Mitsui, a Bharat Petroleum (da Índia), a Centrica (Britânica), a CPC (do Taiwan), a CNOOC (da China), a multinacional holandesa/britânica, Shell e a Total Energies Gas & Power.
O orçamento global do projecto é de 19,9 mil milhões de dólares (15.4 mil milhões de dólares de investimento inicial + 4.5 mil milhões do impacto económico resultante da paralisação).
O consórcio liderado pela TotalEnergies mobilizou o valor de 15.4 mil milhões de dólares com fundos próprios, junto de vários Bancos e agências financeiras para a implementação do projecto. O valor inclui componentes onshore e offshore, custos associados à construção de instalações a serem compartilhadas com o projecto adjacente da Área 4. Trata-se do projecto da ExxonMobil, petrolífera norte-americana baseada Houston (Texas), que está em preparativos para a tomada da decisão final de investimentos na bacia do Rovuma, num investimento de pouco mais de 20 mil milhões de dólares.
