Nguirriiii: a metáfora da morte em “Kugiwa hi misava” de Machavele

Nguirriiii: a metáfora da morte em “Kugiwa hi misava” de Machavele

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“Kugiwa hi misava”, do saudoso Alberto Machavele – maior trovador moçambicano – é uma crónica cantada que sugere uma reflexão sobre a finitude humana. Nela, a morte é metaforizada pelo toque de um telefone imaginário, descrito com recurso a onomatopeia (nguirriiii). A composição opera através de uma transferência semântica onde o telefone se torna o símbolo do fim.

O autor constrói uma narrativa que, tal como Aristóteles define na sua Poética, cruza a referida metáfora com micro- -histórias quotidianas, reforçando a ideia de que a vida é uma dívida que todos temos de pagar (“Hadevoooo”), ao mesmo tempo que esclarece, com ironia, que esta conta não se liquida com bens materiais – dinheiro, oferenda ou rituais – mas com o próprio corpo que acaba por ser ‘comido’ pela terra (“uya giwa hi misava”).

A sátira social caracteriza ainda, através da metonímia, as figuras centrais da sua cantiga. Assim, pulseiras e cajados são relacionados simbolicamente aos nhamussoros, à semelhança dos batuques e da barba longa que identificam os maziones. É importante destacar que a metonímia, na literatura, é explicada pela substituição do “todo” por uma “parte” ou um “objecto associado”.

Nessa linha, o cantor comunica “uma identidade complexa de forma instantânea”, ou seja, o objecto torna-se o símbolo da personagem. Na narrativa, o sujeito desmistifica a suposta omnipotência das personagens da sua canção e denuncia as mentiras e osabusos cometidos sob o manto da fé e do misticismo. “Tikona tinyanga tinga tala ni madzimi lomu misavene… (há muitos curandeiros charlatães, e vocês conhecem.

Paga-se uma nota de 50 na ‘confiança’ de que eles são a fonte da vida”, observa. Os relatos são animados por sons combinados e ideofones de forte cunho humorístico, que auxiliam nessa missão de criticar o charlatanismo: “Ndjindjindjindjindji, himina mamane wa utomi (eu sou a curandeira que dá vida); ndjindjindjindji, na minha palhota tenho a fonte da vida; ndjindjindjindji, tragam notas de 50 para eu desfrutar”, canta com sarcasmo o exibicionismo e vanglorio dos curandeiros.

Mas também, usa o ensejo para chamar atenção da sociedade para a vulnerabilidade de quem procura a cura ou a ‘chave’ para o ventre, em caso de infertilidade feminina. Machavele denuncia cenas grotescas nas quais a dignidade da mulher é maculada pela luxúria daqueles que afirmam servir a Deus na pele de falsos profetas. Leia mais…

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