“É preciso agir rapidamente” para travar aquecimento global, alertam 600 cientistas

“É preciso agir rapidamente” para travar aquecimento global, alertam 600 cientistas

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Perto de 600 cientistas e outras tantas organizações assinaram uma declaração urgente na sequência da conferência sobre alterações climáticas COP30, da qual não saiu nenhuma calendarização para o abandono dos combustíveis fósseis que são a maior causa do aquecimento global. A questão não foi sequer mencionada. O grupo critica a falta de ambição política e alerta que “​é preciso agir e agir rapidamente”.“O mundo entrou numa nova realidade. O aquecimento global em breve excederá o limite de 1,5 graus. Isto põe a humanidade na zona de perigo, em que múltiplos pontos de viragem do sistema climático representarão riscos devastadores para milhares de milhões de pessoas”, afirma a Declaração de Dartington, coordenada pela equipa da Universidade de Exeter e pela WWF no Reino Unido que participou no relatório Global Tipping Points. A declaração inclui as principais conclusões do relatório de 2025, elaborado por mais de 160 cientistas de 23 países. Nele relatava-se que um desses “pontos sem retorno” das alterações climáticas, a morte dos corais tropicais, tinha já sido ultrapassado.A COP30, a reunião anual dos países signatários da Convenção das Nações Unidas para as Alterações Climáticas, que decorreu em Belém, no Brasil, terminou com a assinatura da denominada “Decisão Mutirão” (palavra de origem indígena que significa esforços colectivos), por quase todos os países do mundo. Mas a ambição do documento ficou muito aquém do que seria necessário, salientam os cientistas.A falta de referências aos combustíveis fósseis, ou apenas com uma vaga referência ao “consenso dos Emirados Árabes Unidos”, numa alusão ao compromisso feito na COP28 de iniciar o processo de abandono dos combustíveis fósseis, que não tinha datas nem outras medidas quantificadas, é criticada pelos cientistas.Risco de mudar o mundo como o conhecemos“Para ser alcançável o objectivo de não ultrapassar 1,5 graus de aquecimento global, temos de fazer baixar a curva global das emissões [de gases com efeito de estufa] já em 2026 e depois continuar a reduzir as emissões em pelo menos 5% ao ano”, comentou Johan Rockström, director do Instituto Potsdam para a Investigação do Impacto das Alterações Climáticas, que faz parte do consórcio do Global Tipping Points Report, num comentário ao desfecho da COP30.A Declaração de Dartington foi assinada, até ao momento, por 583 cientistas e 579 outros apoiantes. “​Temos de mudar a nossa perspectiva sobre os riscos das alterações climáticas e da perda da natureza. Deixar de os ver como um processo gradual, em vez disso como um processo que pode causar mudanças devastadoras e irreversíveis”, alertam os cientistas. A elevada concentração de gases com efeito de estufa na atmosfera, como o dióxido de carbono, faz com que grandes sistemas terrestres, “como a plataforma de gelo da Gronelândia ou a floresta Amazónica ultrapassem os seus pontos sem retorno, a partir dos quais será muito difícil regressar ao mundo que conhecemos hoje.”​Entre os riscos mencionados está o colapso da Circulação Meridional do Atlântico (AMOC, na sigla em inglês), que prejudicaria radicalmente a segurança alimentar e hídrica global. O documento alerta também que as alterações climáticas e a desflorestação colocam a Amazónia em risco de “morte generalizada” abaixo dos dois graus de aquecimento global.Com o aquecimento global prestes a ultrapassar o limite de segurança – 1,5 graus -, o documento sublinha que temos de limitar o período em que a temperatura média do planeta está nesse patamar, para regressar o mais rapidamente possível a valores em que os riscos das alterações climáticas são menos graves.

Para ser alcançável o objectivo de não ultrapassar 1,5 graus de aquecimento global, temos de fazer baixar a curva global das emissões já em 2026 e depois continuar a reduzir as emissões em pelo menos 5% ao ano

Johan Rockström


Reduzir emissões a metade até 2030São, por isso, necessários cortes sem precedentes nas emissões de gases com efeito de estufa – que, pelo contrário, continuam a subir – e um rápido aumento da remoção sustentável de carbono da atmosfera, especialmente através da protecção e restauro de sumidouros naturais de carbono, como as florestas.As emissões relativas à actividade humana têm de ser reduzidas a metade até 2030 (tendo como ponto de partida os valores de 2010), e chegar à neutralidade climática em 2050 – ou seja, o momento em que conseguirmos retirar da atmosfera tantos gases de estufa quanto os que lançamos.Mas o mundo não está bem encaminhado para esse objectivo. Os compromissos voluntários dos países para reduzir as suas emissões, ao abrigo do Acordo de Paris, ficam abaixo do necessário. “Ainda conduzem o mundo para um aquecimento global superior a dois graus antes de 2100”, lê-se na Declaração de Dartington. A urgência de agir é imediata, frisam os cientistas.Os cientistas pedem ainda medidas para desencadear “pontos de ruptura social positivos” que possam acelerar a transição para tecnologias e comportamentos de baixo carbono. Por exemplo, o avanço rápido da energia solar e armazenamento da energia em baterias. “Políticas que garantam um clima de estabilidade e certezas na transição energética podem acelerar a mudança positiva”, frisam.São decisões que interessam a todos: “É o futuro do planeta que está em jogo. Se esperarmos, será tarde demais”.

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