Uma hérnia de Spiegel encarcerada: foi este o diagnóstico que levou o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, a ser operado com sucesso na noite de segunda-feira no Hospital de São João, no Porto. O seu quadro clínico foi classificado como favorável, estando a alta prevista para breve.Mas, afinal, o que é uma hérnia encarcerada? Quais os sintomas? O PÚBLICO reuniu algumas perguntas (e respostas) sobre este problema que constitui uma emergência médica.Em primeiro lugar, o que é uma hérnia?Uma hérnia é a protrusão, ou seja, a saliência de um órgão ou tecido, através de uma “abertura” – natural ou adquirida – numa zona mais frágil do corpo.A localização mais comum é a parede abdominal, onde uma parte do intestino ou gordura pode formar uma saliência sob a pele. Mas existem outros tipos de hérnias como, por exemplo, a hérnia crural ou femoral (em que a saliência está junto à coxa), a hérnia do hiato (que consiste na saliência de uma parte do estômago através de uma pequena abertura no diafragma) ou a hérnia discal (que afecta um ou mais discos intervertebrais).Referindo-se ao caso do Presidente da República, Bernardo Maria, médico de cirurgia geral no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, explica ao PÚBLICO que “o que sustenta as nossas vísceras dentro do abdómen é a parede abdominal” e “uma hérnia abdominal não é mais do que um defeito ou uma fraqueza da parede abdominal”, sendo “mais frequente acontecer ao nível do umbigo, na região inguinal ou ao nível epigástrico”, ou seja, na linha média do abdómen, entre o umbigo e o tórax.
“Através desse defeito, dá-se uma protrusão”, com as vísceras a quererem “sair para fora do abdómen”, diz o especialista, acrescentando que, inicialmente, este cenário “leva a uma tumefacção local, inchaço, sensação de dor ou desconforto local”.Uma hérnia de Spiegel, por sua vez, é uma hérnia rara da parede abdominal que ocorre quando há uma protrusão de órgãos ou gordura abdominal através de um “ponto fraco” ou “abertura” na linha de Spiegel, uma área específica localizada na lateral do abdómen, entre o umbigo e o osso da bacia.E uma hérnia encarcerada?Uma hérnia encarcerada ocorre quando os órgãos ou o conteúdo no seu interior ficam presos fora da cavidade abdominal e não conseguem retornar à sua posição habitual.“O que acontece é que, primeiro, sai só um bocadinho de gordura. Mas a hérnia tem um saco associado e, dentro do saco, pode haver intestino. Quando o intestino sai ou quando os conteúdos do saco saem e depois não se conseguem reduzir, começa a haver edema local, inchaço, dor, os tecidos ficam sob tensão e o sangue começa a não chegar lá”, explica Bernardo Maria. Caso a situação não seja resolvida – daí Marcelo Rebelo de Sousa ter sido operado em contexto de urgência –, “estes tecidos que estão no saco herniário, que podem ser gordura ou mesmo intestino, vão acabar por necrosar, gangrenar e levar depois a uma situação de infecção, que inicialmente é local e depois pode-se tornar generalizada, como a peritonite”.Qual a diferença, então, entre uma hérnia inguinal e encarcerada?Inguinal, explica Bernardo Maria, quer dizer que se trata de uma hérnia na região inguinal (também conhecida como virilha), a área na parte inferior do abdómen, entre a região abdominal e a coxa. Isto significa que “pode haver hérnias inguinais encarceradas ou estranguladas porque os ‘pontos fracos’ mais frequentes de hérnias da parede abdominal é a região umbilical e a região inguinal”.Quais os sintomas?Segundo o médico de cirurgia geral do Hospital de Santa Maria, “o primeiro sintoma é a dor”. “Ficamos ali com os tecidos impactados, inchados, o que provoca a inflamação local e isso leva a que haja dor e uma tumefacção que, no caso de a hérnia ficar encarcerada, já não se consegue pôr para dentro ou reduzir”, salienta. Depois, pode haver também um comprometimento do trânsito intestinal e “inflamação do intestino”, culminando num “quadro de náuseas e eventualmente vómitos”.O que pode acontecer no pior cenário?O “pior cenário” acontece quando “não se opera atempadamente” e o conteúdo da hérnia acaba por necrosar, levando a uma proliferação local de bactérias”. Se passar tempo suficiente, frisa Bernardo Maria, “esse processo acaba por se alastrar para o resto do abdómen e dar origem a uma peritonite generalizada” – que, por sua vez, pode evoluir para septicemia e implicar risco de vida.As situações mais graves podem implicar cirurgia para “ressecar intestino” e eventualmente a colocação de um estoma intestinal (um procedimento cirúrgico para criar uma abertura artificial no abdómen, permitindo que as fezes saiam do corpo) – situações essas que podem acarretar a permanência em cuidados intensivos e que podem “evoluir” e culminar na “morte do doente, se não forem tratadas atempadamente”.
