Ainda impressionada com o AVC de Nuno Markl e as razões apontadas pelo próprio radialista; e depois de um jantar de trabalho com diversas editoras e directoras onde todas nos queixávamos do volume de trabalho e do cansaço mental e físico que sentimos; chego à consulta da Medicina do Trabalho e, quando a médica me pergunta como me sinto, respondo em jeito de introdução: “Sabe que o trabalho mata…” E sou imediatamente interrompida por uma mulher que se agita à minha frente de tanta indignação sentida e que repete: “Não diga isso, o trabalho não mata! O trabalho não mata!”Não resisto a sorrir com alguma sobranceria, imagino-a a fazer parte de uma equipa de consultores da ministra do Trabalho e a dizer: “Jornadas de 13 horas diárias, o que é isso? Nada, o trabalho não mata!” A médica continua agitada na sua cadeira enquanto eu vou enumerando todas as formas de o trabalho me matar. Não trabalho numa mina, é certo, não terei cancro dos pulmões, mas estou por vezes mais de 12 horas sentada. “Levanta-se de duas em duas horas”, responde-me. Mas o meu oftalmologista diz-me para me levantar a cada 50 minutos, ir até à janela ou à rua e olhar para longe, para descansar a vista do ecrã, argumento. “Não! Basta de duas em duas horas. Vá à casa de banho mais longe da sua secretária”, sugere. Além dos olhos, os meus ombros… “Os ombros são neutros, se estiver bem sentada, não tem problema nenhum”, diz.Sinto uma tensão imensa, queixo-me. “Não, isso é muscular, vá ao spa e faça uma massagem de relaxamento.” Ao spa? A sugestão não passa por exercício físico ou mesmo por fisioterapia? Todas as pessoas que se sentam à frente desta doutora podem ir ao spa? Por acaso, até vou a spas, mas em trabalho, que não é o mesmo que em lazer. E também vou a hotéis, muitas vezes em fins-de-semana, acumulando semanas de trabalho porque, lá está, não é lazer quando tenho de entrevistar o director, a directora do spa, o chef, todos com horas marcadas, sem esquecer as actividades concentradas em dia e meio para ter a experiência mais completa possível. E há ainda os restaurantes, depois de um dia de trabalho, estar quatro horas sentada à mesa, ouvir explicações de confecções de dez pratos e origens de uma dezena de vinhos não é lazer. É trabalho e é daquele que mata porque daqui a uns tempos terei o colesterol ou os níveis glicémicos altos. “Bom, isso resolve-se com medicação”, responde-me. Não é com refeições leves à noite e não beber vinho? “Peça à sua médica de família para fazer análises regulares e, depois, há medicamentos para tudo isso”, insiste, confirmando como tantos nesta classe profissional continuam a ignorar a prevenção e são tão amigos da indústria farmacêutica. “Está apta para trabalhar”, declara. “Claro que estou!”, respondo-lhe, de testa franzida, será que achou que me estava a queixar à procura de uma baixa médica? É que nunca pedi uma. Estava só a tentar provar-lhe que o trabalho mata. Assino a declaração de aptidão. Um amigo conta-me que voltou a fumar porque na consulta de medicina do trabalho, o médico disse-lhe que uma forma de aliviar a tensão é “ir até lá fora e fumar um cigarrinho”. Não o fazia há 20 anos. Rimo-nos.E volto a Nuno Markl: o que me chocou “um rapaz da minha idade” ter um AVC… O excesso de trabalho pode contribuir para um AVC? “Não, o trabalho não mata!”, consigo ouvir a doutora da medicina do trabalho, mas a neurologista Diana Aguiar de Sousa responde-nos: “É claro que as pessoas que trabalham muito e têm muito stress acabam por ter menos capacidade para ter uma boa qualidade de vida.”Antes de nos matar, o trabalho mói. Madalena Sá Fernandes conta-nos que teve um burnout. Não só o descreve como aponta o dedo a uma sociedade em que temos de estar sempre aptos e se não estamos, o problema não é da sociedade que nos impõe demasiado, é nosso que não correspondemos. Quem ganha visibilidade, precisamente graças ao trabalho, são os jovens com dificuldades intelectuais e de desenvolvimento que têm no projecto Café Joyeux um meio de estarem integrados. Quem quer viver arredado da sociedade pode não ter a vida facilitada, Itália acompanha atenta o caso de uma família que vivia na floresta. O professor Pedro Teixeira escreve sobre o uso de psicadélicos: “Não considero que devam ser apenas doentes ou participantes de estudos científicos a ter acesso a experiências psicadélicas. Os riscos podem facilmente ser minimizados com a adopção de boas práticas.” Ana e Isabel Stilwell conversam sobre os 8% de mulheres que se arrependem de ser mães, sem as julgar. Inês Meneses conversa com a fadista Aldina Duarte no seu Cultas e Vinho Verde. “Nem dei por Novembro passar”, confessou a directora de um site noticioso, no tal jantar de que falava no início desta newsletter. É um facto e Dezembro vai ser igual, antevejo. Vivemos a mil e a rezar para não sermos apanhados por nenhuma doença, física ou mental. Volto a Madalena Sá Fernandes: “Precisamos de descanso. O descanso é político: sem ele não há pensamento, sem pensamento não há dissidência. Uma sociedade esgotada aceita qualquer chefe.”Boa semana!PS: Para quem lê esta newsletter, em baixo estão outros temas Ímpar que destaco nesta semana; para quem nos lê no site, é só clicar aqui.
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