Onze agentes da autoridade – dez militares da Guarda Nacional Republicana (GNR) e um agente da Polícia de Segurança Pública (PSP) – foram detidos durante a manhã de ontem, terça-feira, dia 25 de novembro, suspeitos de escravizarem imigrantes em situação irregular em Portugal.
“Em causa está uma organização criminosa que controlava centenas de trabalhadores estrangeiros, a maioria em situação irregular em Portugal”, explicou a Polícia Judiciária (PJ) em comunicado.
Os agentes da autoridade (e outros seis civis) são suspeitos de, pelo menos, quatro crimes, apontados pela PJ: “auxílio à imigração ilegal, falsificação, fraude fiscal e branqueamento de capitais”.
GNR repudia crimes e garante não ter lugar para quem os comete
Num comunicado enviado às redações, a GNR afirmou ter “total repúdio em relação a quaisquer atos que ponham em causa os direitos humanos, a dignidade das pessoas e o bom nome de todos os seus militares e civis, Mulheres e Homens que, diariamente e de forma abnegada, servem Portugal e os portugueses”.
Tendo isto em conta, a guarda fez questão de salientar que não tem lugar nas suas fileiras “para pessoas cujo comportamento possa corromper o compromisso de honra e exemplaridade ética que nos guia e que assumimos perante a sociedade e os cidadãos que servimos”.
PSP detido estava de “baixa prolongada há 14 meses”
Já a PSP acrescentou algumas informações sobre o agente detido. Trata-se de um polícia afeto ao Comando Distrital de Beja que se encontrava “desarmado e de baixa prolongada há 14 meses”.
Também em comunicado enviado às redações, a autoridade explicou que o homem está “detido à guarda da PSP, em celas de detenção provisória […] para à posteriori ser presente pela PJ à autoridade judiciária competente”.
“A Polícia de Segurança Pública repudia, de forma veemente, qualquer conduta, interna ou externa, que constitua uma violação flagrante desses princípios”, salientou ainda a Polícia.
Presidente da República pede “investigação rápida”
Em reação à detenção dos onze profissionais, o Presidente da República recusou tecer comentários à situação, frisando que não comenta “casos concretos, muito menos em investigação judicial”.
Em declarações aos jornalistas, à saída de uma conferência sobre o 25 de Novembro de 1975, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, Marcelo Rebelo de Sousa fez um apelo para que a investigação fosse rápida. “Rápida porquê? Primeiro porque os crimes invocados são graves e segundo porque estão envolvidos efetivos ao serviço de instituições muito importantes na sociedade portuguesa”, afirmou, realçando que a reputação e credibilidade da PSP e da GNR pode ser posta em causa perante os crimes destes agentes.
Enquanto isso, a ministra da Administração Interna considerou que as instituições funcionaram: “As instituições funcionaram, há suspeitas, a aplicação das regras de direito vai ser impecável e, se alguma coisa houve de errado, apurar-se-á”.
Casos de violência contra imigrantes multiplicam-se
Nos últimos anos, a Justiça portuguesa deteve e acusou vários militares da GNR por crimes contra imigrantes.
Em 2018, em particular, ocorreram duas situações deste género, onde ocorreram crimes de sequestro, violação de domicílio e agressões a trabalhadores imigrantes.
Em setembro, sete militares foram acusados de agredir e insultar estrangeiros, gravando o momento em que, nomeadamente, um dos GNR obriga um imigrante a colocar na boca o tubo de um medidor de taxa de alcoolemia que continha gás pimenta.
Em outubro, de novo, um caso com contornos semelhantes: cinco militares agrediram imigrantes em falsas operações stop.
Já em maio deste ano, dois militares foram detidos por extorsão de “cidadãos pertencentes a minorias”, explicou a GNR em comunicado, na altura, explicando que os militares abusavam da sua “autoridade e, em alguns casos, fazendo uso excessivo da força”.
Detidos vão ser presentes a tribunal esta quarta-feira
A estes casos junta-se agora a operação Safra Justa, de ontem, onde “através de empresas de trabalho temporário, criadas para o efeito” a rede criminosa, apoiada pelos agentes de autoridade “aproveitava-se” da vulnerabilidade dos imigrantes “explorando-os, cobrando alojamentos e alimentação e mantendo-os sob coação através de ameaças, havendo mesmo episódios de ofensas à integridade física”.
Os 17 detidos desta operação vão ser presentes “na tarde desta quarta-feira” a primeiro interrogatório judicial no Tribunal Central de Instrução Criminal (TCIC), em Lisboa, segundo uma fonte policial citada pela agência Lusa.
Dez militares da Guarda Nacional Republicana e um agente da Polícia de Segurança Pública foram detidos esta terça-feira por alegadamente explorarem e escravizarem imigrantes (na sua maioria em situação irregular).
Carolina Pereira Soares | 09:20 – 25/11/2025
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