A celebração de uma efeméride que pretenda comemorar a vida, a morte, a obra, as ideias e a repercussão de um artista, acarreta responsabilidades, desafios e interrogações. A responsabilidade de conseguir justificar a pertinência desse momento: por que razão festejamos os 180 anos de nascimento de Eça de Queirós? Os desafios lançados estão intrinsecamente ligados à responsabilidade e às interrogações de tal celebração. Comemorar uma data redonda e cheia torna-se, então, num ato de cultura e de civilização e, assim sendo, num acto de questionamento simbólico essencial.Celebrar a vida e a obra de Camões, de Agustina Bessa-Luís, de Camilo Castelo Branco e de Eça de Queirós, significa que estes autores não só fazem parte do cânone da literatura portuguesa, como também correspondem àquilo que podemos considerar os monstros sagrados do nosso imaginário colectivo.Todas estas figuras – mais vivas do que nós –, permanecem nas bibliotecas e salas de aula, na cultura popular e livresca, nos dicionários e enciclopédias, demonstrando que a “vitalidade é a medida do génio literário”, Harold Bloom dixit. Génios ou clássicos, de acordo com Calvino. Em comum realça-se a qualidade excepcional, a actualidade e o alcance intemporal daquilo que escreveram. Segundo o autor de As Cidades Invisíveis, “um clássico é um livro que nunca acabou de dizer o que tem a dizer.” Eça de Queirós situa-se, with flying colors, no lugar dos génios e dos clássicos.Nenhum outro escritor da literatura portuguesa como o nosso José Maria criou e deu vida a personagens que se tornaram espelho de comportamentos e atitudes tão intrínsecos à condição humana. De Amaro a Dâmaso, de Acácio a Pacheco, de Gouvarinho a Ramires, todas estas figuras de papel – dentre um infindável rol de uma sociedade literária ímpar – representam e cristalizam um Portugal oitocentista, constitucional, romântico e burguês.
À partida, nada levaria a pensar que a obra e as personagens saídas da pena de Eça continuassem e permanecessem actuais e, por isso, nossas contemporâneas. No entanto, a cada passo ouvimos alguém dizer de determinado político que é acaciano ou que certo jovem tem o fulgor e a rebeldia de um João da Ega; ouve-se ainda afirmar que aquela figura pública – ou académica – é puro Dâmaso ou Pacheco; homens e mulheres, a ninguém o autor de Os Maias perdoa o olhar atento, mordaz e crítico, sendo essa também uma das razões que faz do escritor nascido no Norte de Portugal um eterno contemporâneo.Mais: é seguro afirmar que uma das medidas do génio é a vitalidade e a intemporalidade, assim como a qualidade da criação. Em boa e notável verdade, Eça de Queirós inscreve-se na plêiade dos génios, uma vez que, para além de continuar actual e ser eterno – mais vivo nas largas paisagens literárias do Norte e do Douro do que em apertados templos de mármore –, viu-se superado pela excelência e qualidade das suas criaturas, pessoas de papel que povoam continentes e sociedades que ocupam uma geografia de um espaço diferente do nosso. Eça tornou-se autor de todos nós e personagem de si próprio.
Acusado de francesismo e de ser estrangeirado, o autor de O Mandarim segue sendo o escritor que escreve bem, senhor de um estilo que passou a servir de bitola para a posteridade
Bacharel e sem saúde – o contrário das qualidades que atribuía a qualquer grande homem e à ramalhal figura –, culto e viajado, Eça de Queirós é um dos primeiros representantes da alta cultura e literatura universais. Filho e fruto da Geração de 70, devemos a ele uma leitura de Portugal, da Europa e do mundo que reflecte a condição de um europeu que, embora português, nasceu para triunfar e vencer na vida, ao contrário do que viria a escrever anos depois, em plena idade adulta.Acusado de francesismo e de ser estrangeirado, o autor de O Mandarim segue sendo o escritor que escreve bem, senhor de um estilo que passou a servir de bitola para a posteridade. Em O cânone, Miguel Tamen afirmou que “escrever bem é para a maioria escrever como ele. Falar bem é geralmente medido pela maneira como ele escrevia”. O estilo facilmente reconhecível e as passagens e personagens que escorregadiamente sabemos de cor fazem de Eça de Queirós um Clássico. Um clássico contemporâneo, que teve em Marco de Canaveses, entre os dias 20 a 22 de Novembro, o único evento internacional que celebrou a sua vida, obra e personagens, sob o título Eça com Norte. Nos 180 anos do seu nascimento.Podemos dizer de Eça aquilo que o autor escreveu sobre Antero em Um génio que era um santo, uma vez que as palavras seguintes contêm a substância exacta e escorreita do efeito causado pelo nosso romancista em todos nós: “Destracei a capa, também me sentei num degrau, quase aos pés de Antero que improvisava, a escutar, num enlevo, como um discípulo. E para sempre assim me conservei na vida.”
