ANÁLISE: O mago que ensinou a viola a falar e o povo a rir da própria desgraça – Jornal Domingo
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POR LECUANHANE*
Falar de Xidiminguana requer o atrevimento de quem ignora os limites da própria ignorância. É tarefa hercúlea. São 90 anos de vida, demasiada música e demasiado Moçambique dentro de um só homem para caber nas páginas que domingo me emprestou.
Xidiminguana é uma das espinhas dorsais do nosso cancioneiro. Um embondeiro sobre o qual repousa parte importante da nossa memória musical. Aos 90 anos, continua uma enciclopédia ambulante de folclores, histórias, ritmos e personagens que atravessaram gerações. Continua pergaminho onde se encontra gravada a nossa identidade colectiva.
Felizmente, encontrou há muito uma maneira mais eficiente de contar tudo aquilo que sabe.
ENSINOU A VIOLA A FALAR
E depois saiu com ela por Moçambique a contar-nos a nós próprios. Porque Xidiminguana conhece-nos. Conhece o homem que bebe. A mulher que bebe. O mulherengo. A amante. A preguiçosa que gosta de arroz, mas não quer cultivar a terra. O homem mal-amado que chega ao trabalho sem marmita. Conhece os curandeiros, os búzios, os antepassados e o peso de casar mal. Conhece até a gravidade do desrespeito que encerra uma mulher comer as partes sagradas da galinha.
Parece o chefe de quarteirão do país inteiro. Sabe tudo. E conta. Mas tem a delicadeza de transformar a denúncia em música e o nosso ridículo em gargalhada.
Talvez seja esse um dos grandes segredos de Xidiminguana: não ri do povo. Ensina o povo a rir de si próprio.
DABU MUTAMBULANI
Em Dabu Mutambulani, Xidiminguana conversa com a guitarra. E não estou a usar uma metáfora. Conversa mesmo. Pergunta. Ela responde.
Aquela criatura de madeira e cordas sabe tudo sobre o homem que a segura. Sabe o nome, a proveniência, onde vive, o que bebe. E, caso alguém ainda duvide da credibilidade daquela testemunha improvável, a guitarra jura pelas barbas de Cristo que não mente.
É hilariante. Mas é também uma extraordinária demonstração do instrumentista.
Xidiminguana não toca simplesmente guitarra. É ventríloquo. Empresta-lhe língua, personalidade e memória. A guitarra não é figurante da história, também é personagem.
Talvez aí esteja uma primeira pista para compreender toda a sua obra. Em Dabu Mutambulani, põe a guitarra a falar. Nas restantes canções, põe um povo inteiro.
Mas houve um tempo em que fazer essa guitarra falar podia meter o dono em sarilhos muito mais sérios do que os provocados por uma mulher sem marmita ou por um homem com cinco troféus afectivos.
Xidiminguana também cantou a revolução.
evolução. Em FRELIMO, exaltou o movimento que lutava pela libertação de Moçambique – a FRELIMO revolucionária daquele tempo, ainda antes de o poder e os anos lhe acrescentarem outras histórias, outras contradições e outros pecados.
A polícia colonial não apreciava particularmente aquele género musical. Xidiminguana entrou no radar da PIDE/DGS, acusado de cantar músicas subversivas, e acabou desterrado na África do Sul. Funy teria conhecido perseguição semelhante. Leia mais…
*Hugo Lecuane é especialista em Finanças Corporativas e Fiscalidade. Leitor compulsivo e apaixonado pela literatura, cinema e músicaespecialmente a moçambicana- dedica os seus tempos livres à escrita, procurando compreender artistas, obras e fenómenos culturais para além da superfície.




