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CULTURA

Joaquim Macuácua – a arte de não levar desaforo para casa – Jornal Domingo

Há homens que, quando a vida lhes dá uma chapada, oferecem a outra face. Outros respondem com silêncio. Outros transformam a dor em melancolia, como Elsa Mangue. Outros escrevem romances de amor, como Eugénio Mucável. E depois há Joaquim Macuácua.

Macuácua não absorvia desaforos. Devolvia- -os. Mas nunca na mesma medida. Se lhe dessem limões, não fazia limonada. Arrancava o limoeiro pela raiz e atirava- -te à cabeça. Se lhe apontavam uma pistola de água, respondia com uma bazuca. Não conheço outro artista do nosso cancioneiro que tenha transformado a retaliação numa forma de arte com tamanha consistência. Para Joaquim Macuácua, responder era insuficiente.

A resposta tinha de ser memorável. Humilhante. Devastadora. Talvez por isso me pareça o maior polemista do nosso cancioneiro. Não é por acaso que seja, tanto quanto sei, o único artista moçambicano cuja obra – Dadinha – conheceu uma sentença judicial que proibiu a sua difusão nas rádios e televisões.

As suas canções parecem julgamentos públicos. Cada música escolhe um réu. Ora é uma mulher que lhe partiu o coração. Ora é um tribunal que ousa colocar algemas à sua criatividade. Ora são os moralistas que censuram a sua vida boémia. Ora são os pais que empurram as filhas para a prostituição. Ora é a mão externa que condena um continente inteiro à fome e à guerra.

O alvo muda. O método nunca muda. Macuácua não leva desaforo para casa. Leva-o para o estúdio. E transforma-o numa arma de arremesso.

“DADINHA”

É aqui que percebemos que brincar com o coração de Joaquim Macuácua podia ter consequências imprevisíveis. Dadinha humilha-o. Qualquer outro homem escreveria uma canção de desgosto. Macuácua escreve uma execução pública com requintes de crueldade que lembram o Antigo Testamento. Destrói-lhe a reputação.

Chama-lhe bêbada. Vadia. Surrumática. Diz que nem para esposa serve; apenas para amante ocasional. Conta que tentou corrigi-la, educá-la, meter-lhe juízo na cabeça. E conclui, numa das metáforas mais cruéis do nosso cancioneiro, que todo esse esforço foi como tentar “expulsar cão com osso”. Há insultos. E há imagens que permanecem muito depois do insulto terminar. Leia mais…

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