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CULTURA

“A música deu-me liberdade de ser quem sou” – Jornal Domingo

  • Zé Pires, em entrevista ao domingo, aborda décadas de vivências de música moçambicana

Zé Pires é um dos nomes que atravessa décadas da música moçambicana. Da formação no Pétalas Amarelas à trajectória no Kapa Dech, passando pela produção musical, pelos espectáculos e pelos musicais, construiu um percurso marcado pela disciplina, perda e oportunidades.

Nesta conversa, fala sobre as experiências que moldaram a sua carreira, critica o rumo de parte da música actual, alerta para os impactos da inteligência artificial na indústria criativa e explica a aposta nos musicais.

No fim, fala de “Freedom”, o álbum em que decidiu dar espaço às próprias obras e assumir, através da música, a sua voz como artista.

Zé Pires iniciou-se na música com o grupo Pétalas Amarelas. De que modo o Pétalas Amarelas contribuiu para se tornar o músico que é hoje?

– O Pétalas Amarelas teve mais a ver com a formação do indivíduo do que do músico. Quando se trabalha em grupo, logo na primeira fase da nossa vida, aprende-se a ter a disciplina do grupo, o respeito pelo parceiro, a contribuição e a partilha. Isso faz-nos enfrentar a vida de forma mais aberta e fácil. Porque aquele prazer de fazer os projectos em grupo nasceu desde a base e foi até a gente estar formada como artista.

O músico desenvolve-se muito mais pelas práticas diárias isoladas. No Pétalas aprendemos a conviver, a relacionar-nos dentro de uma disciplina quase militar, e quando saímos já estávamos na juventude e não largamos essa disciplina.

Portanto, continuam assim no Kawai K10?

– Tínhamos percebido que temos de trabalhar em parceria e isso era a essência do que fazíamos quando já éramos Kawai K10, antes de ser o Kapa Dech. Passávamos mais de quatro horas juntos, a ensaiar e a praticar. Isso ajudou-nos a desenvolver, como homens, porque começámos a aprender que precisávamos de trabalhar muito para alcançar o que queríamos. Nota-se isso muito facilmente quando se ouve o Katchume e o Tsuketani.

E faziam músicas de intervenção social. Como decidem seguir por essa linha?

– As composições tinham muito a ver com a forma como vivíamos e como olhávamos para a sociedade. Ninguém de nós vinha de uma família com posses, e quem vive nessas condições praticamente conta a sua história, o quotidiano, aquilo que vê. Vivíamos à volta de pobreza, víamos a cidade a ficar cada vez mais deteriorada, com problemas de higiene, e víamos racismo na África do Sul.

E foi isso que pusemos nas composições. E chegaram, assim, a altos patamares. Entretanto, algum tempo depois vivem a saída de um integrante e dois lutos…

– Antes de sermos colegas, éramos amigos. O Pilekas e o Tony Django foram amigos de infância prévios à música. Então, estamos a falar de morte de irmãos, pessoas de convivência diária durante anos. Naturalmente, a morte deles afectou- -nos brutalmente. A saída do Roberto Isaías também afectou muito. Porque o nosso formato estava pré-definido, era uma banda que cantava em dueto. Se recuarmos, nós que viemos do Pétalas ficamos sempre juntos, tínhamos essa formação de grupo, o Roberto não fez parte desse projecto, era natural que tivesse um sonho pessoal fora daquilo que fazia connosco. .Leia mais…

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