FOTOGRAFIA | MEMÓRIA | HISTÓRIA: Sete décadas a revelar a memória de Moçambique – Jornal Domingo
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TEXTO DE CARLOS UQUEIO
Há fotografias que todos conhecem, mas poucos sabem quem ajudou a dar-lhes forma definitiva. Durante mais de sete décadas, José Machado dedicou a vida a um trabalho quase invisível, mas decisivo para a preservação da memória visual do país.
Foi fotógrafo, retocador de negativos, laboratorista e fotojornalista numa época em que cada imagem exigia conhecimento, precisão e horas de trabalho em câmara escura. Entre as milhares de fotografias que passaram pelas suas mãos, está o retrato oficial de Samora Machel, que, anos mais tarde, viria a ilustrar a moeda nacional, uma imagem que entrou para a história do país. Natural da cidade do Porto, em Portugal, José Machado nasceu a 21 de Novembro de 1942.
Especializado em fotografia e cinema, chegou a Moçambique ainda jovem e fez deste país a sua casa e o palco da sua vida profissional. Trabalhou na antiga Foto Lusitana, em Quelimane, integrou, posteriormente, a equipa do jornal Notícias e acompanhou alguns dos momentos mais marcantes do país, desde os dias da independência às grandes cheias do rio Zambeze, passando pela Operação Produção e, por inúmeras, visitas de chefes de Estado, entre outras figuras políticas. Hoje, aos 84 anos, continua diariamente na Foto Retina, em Maputo.
Entre câmaras analógicas, negativos cuidadosamente conservados e retratos que atravessaram gerações, guarda uma memória que vai muito além das imagens. Guarda a história de uma profissão que praticamente desapareceu com a revolução digital e de um tempo em que uma fotografia não podia ser repetida, porque cada disparo era único e cada negativo representava uma responsabilidade irrepetível.
Nesta conversa, José Machado revisita sete décadas de carreira, recorda os bastidores do fotojornalismo analógico, fala das figuras que fotografou, dos acontecimentos que testemunhou e deixa uma reflexão sobre o presente e o futuro da fotografia.
O seu testemunho é, acima de tudo, um contributo para compreender como a fotografia ajudou a construir a memória colectiva de Moçambique.
FOTOJORNALISMO ANALÓGICO
Aos 84 anos de idade e com cerca de 70 de carreira, como começou a sua ligação à fotografia?
Nunca sonhei ser fotógrafo. O meu pai era sapateiro e a situação da família não permitia que eu continuasse os estudos. Fiz apenas a quarta classe e tive de começar a trabalhar muito cedo. Primeiro fui ajudante numa litografia. Mais tarde, um vizinho que era fotógrafo me convidou para trabalhar numa casa de fotografia. Entrei como ajudante, ainda muito novo, com cerca de 14 ou 15 anos. Foi aí que tudo começou. .Leia mais…




